Carta-Manifesto Aberta
A sociedade, enquanto organismo humano vívido e organizado, é por si representada senão por seus mais diversos setores: sejam eles o educacional, responsável pela transmissão crítica de suas ciências; o político, fundamentado aos trâmites burocráticos da sociedade civil e militar; o partidário, encarregado à organização social e pública; o trabalhista, consolidado ante às proteções dos direitos do trabalhador; o jornalístico, ancorado sobre as pétreas cláusulas da transparência e imparcialidade.
Seja pelo cidadão comum, natural contribuinte da sociedade.
De uma ou de outra forma, representantes de todas as diversas supracitadas classes da sociedade estão recebendo uma cópia desta carta-manifesto. E, se o estão recebendo, é senão por serem todos pessoas quais julgo de grande erudição e discernimento crítico – pessoas por quem pessoalmente nutro apreço e estima e considero que lerão esta mensagem até sua conclusão para, assim, construir mais lucidamente suas próprias críticas. Para tanto, retrocederemos pela bússola dos tempos.
Ainda aos idos de mil novecentos e sessenta e quatro – o início do período férreo qual alguns ainda preferem denominar por Revolução - , em pleno ao centro à capital paulista, esta historicamente pendente ao desalinhamento ante ao eixo do Planalto Central desde 1932, ruge um verdadeiro feudo de contestação à Ordem então vigente. Pertencente à USP, trata-se da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas: a FFLCH.
Por muitos dos idos de chumbo, a FFLCH foi o berço das principais e mais contundentes manifestações políticas e intelectuais com a finalidade de combater o então Estado-de-Exceção – e é neste período, inclusive, que ascendem no cenário social alguns dos hoje conhecidos políticos e líderes de classes, organizações, sociedades e partidos políticos contemporâneos. Alguns dos quais também leitores desta carta.
Passados anos ainda em sede ao Centro, foi a USP – ou ao menos boa parte de suas Faculdades - então transferida para um bairro até então relativamente isolado e remoto. O bairro do Butantã, àquela época, era senão um grande panorama entrecortado por colinas, morros e vales pantanosos ou alagadiços – o local ideal para que se pudesse, à época, garantir certa falta de socialização estudantil (dadas as distâncias entre os prédios) e isolamento urbano (dada a erma condição do campus).
Com isto, estaria o Estado seguro em seu Direito, mantendo em vigilância todo foco dissidente – seja pelo desestímulo da coerção, seja pelo isolamento do ostracismo. Para que se fossem legados direitos mínimos de agremiação, porém, convencionou-se a não-intervenção e não-presença policial em campus universitário.
À prática, sucederam-se os anos de ditadura: revoltosos foram contidos; corpos fora torturados; vozes, foram abafadas. Não havia agremiação política de oposição; entidades de classe trabalhadora não dispunham de força; grêmios estudantis não tinham mais impacto de e para mobilização; a imprensa livre era tolhida de seu ofício.
A imprensa-fera e antropofágica, porém, seguia em seu discurso.
Muitos de vocês, leitores, sabem do que estou falando porque, de uma ou outra forma, foram agentes diretos que, cada um à sua forma, propuseram-se a se contrapor à Ordem regente. Cada um de vocês sabe, também, do quão fundamental foi o papel de algumas mídias para que tal estado não fosse questionado, abalado ou dissolvido.
Os anos se seguem. Direitos são contestados; deveres, são debatidos. Vem a Constituinte. Dos resultados concretos, da USP surgiram senão alguns dos principais cidadãos atuantes de diversos setores da sociedade: de lá, não apenas surgiram revolucionários – surgiram também aqueles que encabeçam hoje não apenas pastas e partidos como também cargos e grêmios; não somente sindicatos de classe como também entidades de imprensa e mídia.
E, como um todo, também compõem a sociedade como seus naturais contribuintes.
Ao decorrer dos anos, porém, a agremiação político-estudantil passou gradualmente da democratização à coerção: seja ela a coerção ideológica, por combates teóricos entre frentes de oposição também divergentes entre si; a coerção financeira, por meio de diminuições de receita e de espaço estudantil centros acadêmicos afora; a coerção burocrática, por intermédio dos trâmites jurídico-legais.
Lentamente, em mais de vinte anos de democratização, faltava cimentar apenas mais um lastro coercivo: o da coesão física - afinal, a Polícia Militar ainda não dispunha de acesso ao Campus Universitário.
Durante os últimos dez anos, observaram-se diversas manifestações estudantis em diversos dos pólos universitários federais e estaduais – e isto não se trata de mera coincidência. Tais contestações são senão o reflexo de toda uma complexidade de fatores que envolvem a própria fundação e história de cada uma das faculdades públicas brasileiras: de todas elas, sem exceção, surgem diversas vozes de dissidência à Situação, independentemente de qual seja a mesma.
Quanto à repressão de pensamento, pode-se burlar as barreiras da ideologia teórica; do patronalismo de classe; do sectarismo político. Mas não se pode fugir de duas das ainda antigas formas de coerção: as da repressão da voz e do corpo.
Em momento algum a mídia tratou o recente incidente da USP com a devida imparcialidade. Quando não se calou, friamente retratou apenas um dos lados da questão talvez movida por interesses muito maiores, que muito provavelmente contemplam antigas aspirações de alguns dos aqueles à época da ditadura também líderes e estudantes de faculdades como USP, UNESP, UNICAMP, UnB, UFMG, FMU, PUC, Mackenzie e outras. Muitos deles inclusive amigos, colegas ou contatos de vários dos leitores desta carta-manifesto.
Por conta desses mesmos interesses, inverteram-se então os papéis. À esclerose abismal do princípio da imparcialidade, o que se vem observando é agora o rugir daquela mesma mídia-fera antropofágica qual, infelizmente, ainda está às mãos dos muitos que retumbam como herança daqueles outros tempos sombrios. Talvez há muito tempo que o infame Partido da Imprensa Golpista (o P.I.G., a termos emprestados do colega Paulo Henrique Amorim) não dispunha de tamanho bolo de carniça para investir com suas garras antropófagas: em questão de uma semana, esteve a mídia repleta por coberturas unilaterais e tendenciosas sobre os fatos e ocorrências em campus universitário – e isso sem levarmos em conta a cadeia de pautas de notícias pelos telejornais afora, todas elas enviesadas por matérias ora a coroar e enaltecer os recentes reveses da Imprensa, ora a reverenciar e enobrecer os grandes feitos da Polícia, ora a recriminar as recentes contestações sociais. Mas, sempre, calando-se quando mais conveniente.
A mídia não falou que o flagrante de porte de cânhamo na USP foi “arranjado” por denúncia anônima – e ninguém o estava fumando; não foi dito que o Diretório Central Estudantil e as diversas lideranças partidárias eram favoráveis às ocupações – até que receberam a informação de que seriam processados caso seguissem o apoio formal; não se falou da conveniente dissolução sectária do movimento estudantil, já solapado pelas reivindicações mesquinhas de representantes de classe; nada se disse do caráter pacífico da ocupação da reitoria, tampouco foi algo mencionado acerca das tentativas de diálogo com a Reitoria; palavra alguma foi divulgada acerca das (várias) reivindicações dos estudantes; nada se disse dos policiais e repórteres infiltrados, “implantados” dentro da ocupação e do movimento estudantil – alguns dos quais, inclusive, incitadores das várias supostas cenas de agressão.
É este, amigo leitor, o retrato dos televisores, jornais e magazines dispostos por mais de cem milhões de lares brasileiros. Uma visão absurdamente unilateral e inacreditavelmente manipulada para que fosse desvirtuado o verdadeiro foco de discussão. Não se trata da legalização de substâncias ilícitas; não se trata da criação de uma zona sem lei; não se trata de uma revolta de golpe-de-estado. Trata-se, porém, de um coletivo de idéias que permeiam o conceito da real liberdade do indivíduo e de seu direito pleno de se agremiar, manifestar-se e mobilizar-se contra toda e qualquer força política, ideológica, mercadológica ou partidária que em algum momento esteja a solapar algum dos lastros desta mesma liberdade de expressão da sociedade. Trata-se de discutir a real ação e eficácia dos métodos de coerção policial; a verdadeira lógica do tráfico e consumo de drogas; a desfocada imagem refletida pelas lentes da mídia golpista; a irreal utopia sindical e corrupção partidária.
Uma vez inserida dentro do contexto universitário, seja qual instituição for, a presença da Polícia Militar funciona senão como uma plena força de coerção física, aliada inseparável daqueles mesmos representantes da Imprensa que se alimenta da mesma carniça à qual se serve o topo da pirâmide social responsável pela manutenção desta mesma Imprensa, incumbida esta de servir o alimento àquela mesma casta de naturais contribuintes da sociedade. Imagens foram suprimidas; entrevistas foram tendenciosas; agressões foram provocadas; informantes foram infiltrados; agitadores foram implantados. Tudo isso não se trata de teoria conspiratória: é apenas uma coleção de fatos e relatos de diversas fontes presentes aos casos.
Em lógica pura, empírica e simples: se contingente policial fosse marco de eficiência para coibir a criminalidade, bastariam três concursos públicos mensais para o ingresso na Corporação. Todos aqui somos inteligentes o bastante para, suponho, sabermos que a questão da segurança pública é infinitamente mais complexa do que cacetetes e .38s.
Dentre os leitores desta carta estão educadores, políticos, representantes partidários e sindicais, estudantes e jornalistas que possuem senão um elevado grau de discernimento e espírito crítico – o mesmo sopro que insuflou as bandeiras da Democracia e da liberdade de expressão em nosso país. São livres-pensadores, escritores, poetas; professores, estudantes, trabalhadores; são senadores, deputados, vereadores; são filósofos, historiadores e jornalistas. Somos também você e eu, e todos que estiverem dispostos a pensar com mais profundidade acerca do que está acontecendo não apenas em um campus universitário, mas também é como reflexo dos ecos de outros povos de outros cantos – como verdadeiro zeitgeist, define com nitidez o período histórico de incertezas sociais no mundo.
Cabe a todos nós, como naturais contribuintes não deste ou de qualquer Estado, mas sim como contribuintes de nossa sociedade – cada um em sua área, à sua maneira e seus próprios recursos - , cabe a todos nós não nos calarmos ante ao cínico silêncio da Imprensa Golpista e à toda a teia de interesses que infelizmente enledeia nosso país. Apelo a cada leitor: procure fontes alternativas para se informar acerca do que realmente aconteceu à ocupação da Reitoria: seus porquês, seus motivos, suas reivindicações, suas proposições; procure informar-se sobre o que a mídia não diz, revela ou mostra; procure espalhar a voz do outro lado da questão.
Mais do que nunca, procure se lembrar do verdadeiro papel da Imprensa: o de, idônea e transparente e imparcialmente, captar da sociedade suas principais evoluções, revoluções e ebulições.
Nunca, portanto, chafurdando ante o chorume monocromático da nítida e vexatória parcialidade com a qual vem a mesma Imprensa tratando não somente este, mas também outros diversos episódios onde a defesa de interesses maiores acabou por ditar o que realmente seria essa tal de “verdade”.
Por favor, repasse a palavra adiante. Seja qual for sua área de atuação dentro de nossa sociedade, assuma uma postura construtiva, converse, comente, discuta, dialogue sobre este assunto tão expressamente vital à sociedade que estamos, com nosso silêncio, deixando que se construa sobre nós. Nós, enquanto cidadãos críticos e pensantes temos não apenas o dever ético como também o dever humano de assumirmos publicamente nossos pontos-de-vista.
Caso contrário, com nosso silêncio, do jeito que anda a carruagem, ainda pode chegar o dia em que algum membro do P.I.G. acuse alguém de possuir armas de destruição em massa.
Muito obrigado,
Diego Aurélio Cotrim Ramires.
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